Name:
Location: Cranbrook, Colômbia Britânica, Canada

Helder Fernando de Pinto Correia Ponte, também conhecido por Xinguila nos seus anos de juventude em Luanda, Angola, nasceu em Maquela do Zombo, Uíge, Angola, em 1950. Viveu a sua meninice na Roça Novo Fratel (Serra da Canda) e na Vila da Damba (Uíge), e a sua juventude em Luanda e Cabinda. Frequentou os liceus Paulo Dias de Novais e Salvador Correia, e o Curso Superior de Economia da Universidade de Luanda. Cumpriu serviço militar como oficial miliciano do Serviço de Intendência (logística) do Exército Português em Luanda e Cabinda. Deixou Angola em Novembro de 1975 e emigrou para o Canadá em 1977, onde vive com a sua esposa Estela (Princesa do Huambo) e filho Marco Alexandre. É gestor de um grupo de empresas de propriedade dos Índios Kootenay, na Colômbia Britânica, no sopé oeste das Montanhas Rochosas Canadianas. Gosta da leitura e do estudo, e adora escrever sobre a História de Angola, de África e do Atlântico Sul, com ênfase na Escravatura, sobre os quais tem uma biblioteca pessoal extensa.

Tuesday, May 30, 2006

4.3 Homem e Sociedade



Caro Leitor: Este Capítulo está ainda em Construção.

Para uma melhor conhecimento dos povos de Angola e para uma melhor compreensão da sua história, em especial para o período antes e durante o contacto com os Portugueses, julgo útil rever alguns conceitos fundamentais de ciências sociais, que nos vão ajudar a melhor compreender os fundamentos das estruturas sociais dos povos de Angola.

1. Sociedade

O ser humano é essencialmente gregário e social. Em geral, o indivíduo vive desde o seu nascimento até à morte pertencendo sempre a um ou mais grupos sociais da sociedade em que vive. A pessoa vive sempre rodeada dos seus semelhantes com quem se relaciona de acordo com relações económicas e sociais estabelecidas pela sociedade. De facto, o homem, como espécie animal, é nos primeiros anos de vida a espécie mais vulnerável e dependente (nunca um bébé podendo sobreviver sózinho sem a ajuda constante da mãe ou da família), e a que requere o maior e mais longo esforço de transmissão de cultura (educação - entre 12 e 20 anos).

Em todas as sociedades, estejam elas numa fase primitiva ou tecnologicamente avançada, podem observar-se certos padrões de organização social baseados no ambiente físico e na estrutura económica. Entendo assim por sociedade como um grupo grande de indivíduos (por sua vez enquadrados em grupos, ou classes sociais) que são dependentes entre si e que partilham uma identidade colectiva, a(s) mesma(s) língua(s) e a mesma cultura.

2. Cultura

O conceito de cultura é fundamental para o estudo de qualquer sociedade. Entendo por cultura o sistema de valores, crenças, costumes e comportamentos que os membros de uma sociedade praticam para viver no meio ambiente e com o seu semelhante. Atrevo-me assim a dizer que a cultura é a personalidade de um povo. Uma cultura não é um todo social estático ou amorfo; pelo contrário, é uma unidade dinâmica que está sempre em contínua evolução, pela qual mudanças sociais estruturais estão em gestação permanente.

A cultura material consiste nos produtos materiais como a comida, vestuário, utensílios, e habitação, e a cultura não-material refere-se a ideias (produtos intangíveis como valores, crenças e normas). A cultura ideal é o que devia ser e cultura real é o que na realidade é.

O homem comunica com o seu semelhante por meio de sinais e da linguagem que são mutuamente compreendidos pelos membros do sociedade. Valores são padrões pelos quais os membros da sociedade definem o bom e o mau, o sagrado e o profano, ou o belo e o feio. Crenças são convenções naturais que se referem à natureza do universo e ao lugar e papel do homem no mesmo. Normas são regras estabelecidas pela sociedade que definem quais os comportamentos apropriados e os imprópios.

Quando duas ou mais culturas entram em contacto entre si, um processo de aculturação ocorre pelo qual cada cultura adopta elementos culturais das outras, resultando desse processo modificações profundas nas estruturas sociais, económicas, políticas em cada uma das culturas. A diversidade cultural de uma sociedade resulta do interacção entre essa sociedade e todas as outras com entra em contacto.

2. Etnocentrismo

O etnocentrismo é a tendência de base cultural que tende a interpretar as culturas dos povos em função da nossa própria cultura. Praticamos o etnocentrismo quando julgamos os valores, padrões e normas de outras sociedades de acordo com os nossos próprios. Nos anos de infância da antropologia cultural era comum para os antropólogos julgar as sociedades que estudavam numa perspectiva etnocêntrica, muitas vezes criticando ou emitindo juízos de valor sobre as sociedades estudadas. Porém, o relativismo cultural, defendido pelo "pai" da antropologia cultural Franz Boas no princípios do Séc. XX, prescreveu que na prática da antropologia as tradições culturais de um grupo a ser estudado devem ser compreendidas no contexto das soluções a problemas e oportunidades desse mesmo grupo, e isentas de qualquer etnocentrismo (relativismo cultural). Assumimos assim uma atitude etnocêntrica quando pensamos (e acreditamos) que a nossa moral, valores, costumes e padrões sociais são superiores aos de outra cultura ou sociedade. Em certos casos, o etnocentrismo alimenta o racismo, já que este não é senão a crença que certas sociedades humanas são superiores a outras com base em características genéticas.

3. O Indivíduo

O indivíduo, como pessoa inserida num grupo social, é reconhecido pela sua individualidade e pelo papel económico e social que desempenha no grupo. Em todas as sociedades a pessoa é classificada em três categorias principais de acordo com os estágios da vida: criança, adulto e idoso, cabendo a cada geração um papel específico na economia e na sociedade.

4. A Família

Em qualquer sociedade a família é o grupo nuclear mais elementar. A família imediata é constituída pelos pais (pai e mãe) e filhos (irmãos e irmãs), e a familia extensa inclui outras pessoas com relações de parentesco não tão próximos como tios, sobrinhos, primos avós, netos, cunhados e sogros.

4.1 Relações de Parentesco

As relações de parentesco definem-se em geral por consanguinidade (sangue) ou por afinidade (casamento). Em algumas sociedades o casamento é monogâmico (um marido e uma mulher), ao passo que noutras sociedades os casamentos plurais (poligamia) são normais, na maioria permitindo ao homem ter múltiplas esposas (poligenia), e em muitos poucos casos permitindo à mulher ter vários maridos (poliandria). As relações de casamento influenciam sobremaneira a estrutura da família, e o papel do pai, da mãe e dos filhos, e da família extensa na sociedade.

Pelo seu interesse e relêvo neste tópico, transcrevo um trecho do "Contacto de Culturas no Congo Português - Achegas Para o Seu Estudo", do Dr. Manuel Alfredo de Morais Martins, Edição do Ministério do Ultramar - Junta de Investigações do Ultramar - Centro de Estudos Políticos e Sociais, publicado Lisboa em em 1958, e relacionado com os povos do Antigo Reino do Congo:

"A família conjugal era poligínica, em que todo o homem possuía as mulheres que queria e podia adquirir. A residência familiar não era una. Cada chefe de família possuía um grupo de palhotas nas imediações da sua própria, e cada uma delas era destinada a cada uma das mulheres (e seus filhos). Entre as esposas havia duas categorias: as escravas que tinham sido compradas, e sobre as quais o marido tinha direiros absolutos, a ponto de serem sacrificadas quando da sua morte, para continuarem a servi-lo na outra vida, e as livres, cedidas por empréstimo, por assim dizer, mediante o pagamento de uma indemnização. Este conjunto era e é denominado lumbu.

Se bem que todas as mulheres livres tivessem os mesmos direitos e obrigações, havia entre elas uma preferida, quase sempre a primeira, que servia de conselheira....

O marido pernoitava com cada uma das mulheres segundo uma escala estabelecida. Cada mulher habitava com os seus filhos mais pequenos na sua própria cubata e aí tinha os seus bens próprios e preparava a alimentação para si e seus filhos e também para o marido, quando lhe chegava a vez. à mulher competia o fornecimento dos géneros agrícolas e ao homem o do sal e da carne.

A economia da família conjugal estava também regulada. Cabia ao homem a escolha do local para as lavras e a sua divisão em tantos campos independentes quantas as mulheres e mais um, destinado a ele próprio, no qual trabalhavam todas as mulheres. O serviço do marido na agricultura resumia-se à derruba das árvores, na qual era muitas vezes ajudado por outros homens, em sistema de cooperação...

Os filhos das mulheres livres eram conservados na aldeia paterna até certa idade, 8 a 10 anos, indo depois habitar junto do tio materno mais velho. Nos primeiros anos, enquanto precisavam de cuidados constantes, viviam na cubata materna, mas depois passavam a dormir numa casa à parte, juntamente com todos os outros filhos do seu pai, com os filhos das escravas, que, por não pertenceram a nenhum clã, tinham sempre residência patrilocal, e com os sobrinhos do pai, filhos de suas irmãs. Com as raparigas dava-se o mesmo. à primeira chamava-se nzo kiyakala (casa dos homens) e à segunda nzo kinkento (casa das mulheres)."


Para a grande maioria das sociedades, as relações de parentesco determinam as regras de descendência, casamento, administração de justiça, relações de família, relações sexuais fora do casamento, residência da família, distribuição de herança entre herdeiros, e distribuição de títulos sociais e políticos. A kanda do povo Bakongo é a proprietária da terra, pois ela é propriedade dos antepassados, os quais legaram apenas o seu usufruto aos descendentes, e não a sua propriedade.

Em termos de preservação da instituição da família, em algumas sociedades, quando o marido morria na família, era permitido (ou até requerido) que outro homem (geralmente o irmão mais novo do falecido) casasse com a viúva e assumisse o papel de novo chefe de familia; esta instituição é designada por levirato. Por outro lado, noutras sociedades e no caso da morte da mulher, o marido (viúvo) era permitido (e por vezes requerido) casar com uma irmã da falecida esposa; esta instituição é designada por sororato.

Quando as sociedades estão organizadas em conjuntos de famílias descendentes do mesmo antepassado comum, diz-se que essas sociedades estão organizadas em clãs. O clã é um grupo social naseado numa linha de descendência de um mesmo antepassado comum. O clã inclui vários grupos de famílias ou linhagens. As linhas de descendência definem as regras de inclusão (pertença) no clã. As linhas de descendência podem ser através da mãe (matrilinear ou sipe), ou através do pai patrilinear ou gens). Para o povo Bakongo, a kanda agrupa todos os indivíduos livres de ambos os sexos, adultos ou crianças, que se consideram descendentes por via uterina, de um mesmo antepassado feminino.

Para um indivíduo ser membro de um determinado clã acarreta um número de responsabilidades e privilégios definidos pelos membros do clã. Em alguns sistemas de clãs o casamento entre duas pessoas do mesmo clã (endogamia) não é permitido, e é até considerado como incesto (uma forma de tabú); permitindo apenas casamentos com membros fora do clã (exogamia), a kanda do povo Bakongo não permite o casamento entre dois membros da mesma kanda. Noutros sistemas clânicos tais regras restritivas não existem. Contudo, a grande maioria dos sistemas clânicos têm regras que proíbem relações sexuais e de casamento entre pai e filha, mãe e filho, ou irmã e irmão, tios e sobrinhas, tias e sobrinhos, e alguns até entre primos direitos.

Por tabú entendo um sistema de interditos religiosos aplicadas a determinadas entidades (seres, objectos, etc.) e atitudes consideradas sagradas ou impuras. Por tabú também se designa a interdiçaõ social ou cultural de abordar determinado assunto ou adoptar determinado comportamento.

Essencialmente, a família é um grupo social involuntário, na medida em que não escolhemos os nossos pais e irmãos. Contudo, em todas as sociedades encontramos associações voluntárias em que os membros têm laços especiais entre si. As associações voluntárias podem formar-se por uma variedade de razões, mas são mais típicas as que ligam os membros da mesma idade, do mesmo sexo, do mesmo estatuto marital, riqueza ou ocupação. O acto de admissão numa associação pode ser genuinamente voluntário, ou pode ser resultado de pressão social.

5. Ritos de Passagem

Para a grande maioria das sociedades a admissão de jovens como membros adultos na sociedade é celebrada de acordo com ritos de puberdade ou de passagem. Por outro lado, a celebração de um novo membro numa associação é feita através de ritos de admissão muito próprios à associação. Na maioria das sociedades as associações são publicamente reconhecidas, sabendo-se sempre quem é membro e quem não é; contudo, em muitas outras sociedades tais associações são secretas. Pelo seu interesse e oportunidade, transcrevo no final deste capítulo um trecho das "Notas de Etnografia Angolana", do etnólogo Dr. Mário Milheiros, sobre os ritos de puberdade entre os Maiaca (ou Iaca) de Angola*, uma tribo Bakongo que vive ao longo do rio Cuango (Sacandica, Quimbele e Macocolo), no nodeste de Angola.

6. Estratificação e Mobilidade Social

Em todas as sociedades os indivíduos estão organizados em classes sociais. Como classe social entendo um grupo social baseado na riqueza, poder político, prestígio, ou outra escala de valor social. Como membros da sociedade e da sua classe social, os indivíduos observam rituais ou processos específicos para membros passarem de uma classe social para outra (mobilidade social). Contudo, em certas sociedades, os membros de certos grupos (definidos por condição de nascença), não podem ingressar noutros grupos; tal é o caso de algumas castas na Índia, em que há certos grupos sociais caracterizado por uma determinada ocupação, e em relação a cujos membros se espera que apenas casem no seu seio.

A instituição social da escravatura na maioria dos povos Bantos de Angola antes do contacto com os Portugueses, apesar de mostrar uma certa rigidez na mobilidade social nesses povos, cujas sociedades se encontravam divididas em três classes sociais distintas: a nobreza, cidadãos comuns (trabalhadores da terra e mercadores), e escravos, permitia uma grande amplitude na mobilidade social, pois o escravo era com frequência admitido no seio da família após alguns anos de convívio, chegando até a ocupar certas posições de riqueza e prestígio na sociedade local.

7. Formas de Organização Social

Os grupos humanos seguem em regra os mesmos padrões de desenvolvimento social e político. A progressão típica começa com a família, à que se segue o bando, a tribo, a aldeia, a cidade, e a nação. As quatro primeiras formas de organização pessoal são as formas mais simples, típicas de sociedades muito antigas, ou de sociedades "primitivas", e não se apresentam como organizadas em estados de estrutura plítica organizada. A necessidade das sociedades se organizarem em estados nasce apenas quando essas sociedades estão organizadas em aldeias que alimentam as necessidades de cidades, em que a divisão do trabalho é já clara e relativamente avançada e a propriedade dos meios de produção é privada. Passamos a cobrir agora em mais detalhe cada uma das formas de organização social e política.

7.1 Bandos

Os Bandos são a forma mais simples de sociedades humanas. Em geral são constituídos por um pequeno grupo de membros relacionados através de relações de parentesco dentro dos parâmetros da familia extensa. A economia é baseada na colecta de frutos silvestres e na caça de animais selvagens, não produzindo contudo qualquer excedente económico. O sistema de propriedade é geralmente comunal. A liderança é normalmente informal, sob a autoridade de um chefe, ou de um patriarca ou de uma matriarca; e os membros mais velhos desenvolvem o papel de conselheiros (anciãos).

7.2 Clã

O clã é composto por bandos de membros que têm um mesmo antepassado comum, podendo incluir várias famílias. Quando o antepassado comum era um animal, o bando reconhecia-o como um totem. Quando as linhas de parentesco eram definidas através do lado paterno (pai), o clã é patrilinear; quando as linhas de parentesco são definidas através do lado materno (mãe), o clã é matrilinear. A maioria dos clãs não permitem casamentos entre os seus membros.

7.3 A Tribo

A tribo é uma unidade social e política pouco homogénea formada por algumas famílias, clãs ou outros grupos de membros que partilham os mesmos antepassados, a mesma cultura, a mesma língua, a mesma chefia, e o mesmo território comum. As tribos apareceram com a domesticação de animais e plantas, quando se tormou possível aos bandos e clãs viverem juntos em pequenas aldeias.

Os clãs e as tribos são em geral formas de organização nómadas, pois mudam de um território para outro, seguindo um movimento cíclico de acordo com as estações do ano e abundância de determinados alimentos (frutos, raízes, cereais, caça, pesca, pastagens e agricultura) durante o ano.

8. Padrões de Povoamento

Em termos de geografia humana, os agregados humanos podem classificar-se entre comunidades rurais e comunidades urbanas; As comunidades rurais são caracterizadas por povoações de pouca população e baixa densidade populacional (aldeias) , uso extensivo da terra, em que a actividade económica principal é a agricultura, a pastorícia ou a pesca, de certa maneira distante e oposta a centros urbanos (cidades).

Por outro lado, as comunidades urbanas caracterizam-se pela concentração urbana, densidades populacionais altas, e em que a economia é diversificada entre a indústria e serviços, com ênfase na indústria manufactureira, no comércio e nos serviços públicos centrais. Serviços públicos incluem em regra estabelecimentos de ensino, hospitais, tribunais, cadeia, instalações militares e de polícia, portos ou aeroportos, serviços de governo e instituições culturais.

8.1 Aldeias

Quanto aos graus de povoamento, a aldeia é a forma mais reduzida de povoação. A aldeia é uma pequena unidade de população rural entre 5 a 25 famílias, em que os seus habitantes estão de certa forma ligados por relações de parentesco, e que por norma se dedicam à agricultura e à pecuária. A vila é uma povoação maior do que uma aldeia, mas mais pequena que uma cidade; ainda com base económica na produção de matérias primas (agricultura, pecuária, pesca e minérios), se bem que possa já ter alguma indústria e serviços públicos e privados.

8.2 Cidades

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9. A Vida Terrestre e do Além em Algumas Sociedades Tradicionais Angolanas

A maioria dos povos de raíz Banta na África ao sul do Sahara partilham não só de uma fonte comum na sua língua, mas também na filosofia de vida e religião que mostram também valores comuns. A cosmologia (como concepção do mundo e do universo) dos povos Bantos de Angola apresenta um grande número de semelhanças. Em regra, para o membro de uma sociedade tradicional a vida segue o padrão de um círculo que está sempre em mutação.

Para melhor compreender este conceito é prático imaginarmos um círculo semelhante ao movimento do sol durante o dia, com os quatro pontos cardeais (Este (Nascer do Sol), Norte (Meio Dia), Oeste (Pôr do Sol) e Sul (Meia Noite), e de coordenadas nos quadrantes 270º, 0º, 90º, e 180º ) respectivamente, os quais representam os pontos mais importantes da vida do indivíduo - nascimento, criança, jovem, adulto, velho e morte.

Cada quadrante é dividido em duas fases da vida que correspondem aproximadamente a 15 anos de vida, que era estimada a durar cerca de sessenta anos. Assim no primeiro quadrante acima do horizonte, que corresponde ao nascer do sol e a manhã, encontramos o nascimento e a primeira fase de infância e meninice até aos 15 anos de idade. Nos próximos 15 anos a criança passa a jovem durante a qual experimenta o vigor da juventude até chegar à fase adulta. Como adulto, entre os 30 e os 45 anos, a pessoa dedica a sua vida à criação da sua família. A velhice segue a fase adulta, caracterizada pelo entardecer, entre os 45 e 60 anos de idade, altura em que a pessoa morre e deixa de pertencer ao mundo dos vivos e se muda para o mundo dos mortos, que ocorre no instante em que o sol se põe e a noite nasce. Nos dois quadrantes inferiores (abaixo do horizonte) correspondentes à noite, o espírito da pessoa morta passa primeiro por uma fase de memória de família e social activa e actuante em que acompanha de perto os vivos na sua vida quotidiana, seguida de uma fase de morte real e de esquecimento até o espírito incorporar um novo ser na forma de uma nova pessoa.

Assim, a pessoa nasce no quadrante Este (270º ) no momento do nascer do sol, passa pela infância e juventude recebendo nessa fase um esforço de educação intensa, à medida que caminha para Norte (0º ). Através dos ritos de passagem que têm lugar no quadrante Norte o jovem passa a ser considerado um adulto. Nesta fase da vida em que o sol está a zénite, o namoro, o casamento e a formação da família são os momentos altos da fase da vida adulta. Completa a fase da criação dos filhos, e com o avanço da idade em que a vitalidade começa a abrandar até o indivíduo atingir a velhice, já no quadrante Oeste (90º ). Aqui o papel da pessoa na sociedade é o de ancião, para guiar os mais novos nos trilhos da vida e do universo social. Depois da velhice vem a morte, que ocorre no momento do pôr do sol (no quadrante Oeste a 90º. Após a morte terrestre, a vida continua no Além em forma de espírito. No mundo do Além o espírito da pessoa continua a participar na vida social da família e da comunidade, primeiro acompanhando de perto a vida dos vivos, e mais tarde procurando e retomando a vida na forma do nascimento de uma nova pessoa na comunidade. O ciclo da vida renova-se assim de geração em geração.

Os espíritos dos antepassados desempenham assim um papel importante na vida do indivíduo, da família, da comunidade, e da sociedade. Os espíritos, tal como os vivos, podem praticar boas acções e más acções. Assim eles podem ser chamados a prestar um papel positivo na cura da doença num indivíduo através da actividade do curandeiro, ou ser chamados a prestar uma acção negativa através dos feitiços e mau presságios do feiticeiro.

O papel dos espíritos ocupa a quase totalidade do universo religioso, já que apesar de acreditarem na existência de um ser divino superior, é na da interacção com os espíritos dos antepassados que o fenómeno religioso se materializa. Da relação básica entre o curandeiro e o feiticeiro, entre a ciência e o divino, entre o bem e o mal, entre o material e o sobrenatural, é onde nasce e se realiza a função do espírito, onde se estabelecem e se praticam as crenças e ritos religiosos. Para a maioria dos povos tradicionais angolanos, Deus (Nzambi para a maioria dos povos) é uma entidade divina muito distante com poderes sobre-naturais sobre os vivos e os mortos. Porém, ele está tão longe, que não é possível comunicar directamente com ele, e se tem de recorrer então aos espíritos dos mortos para que essa comunicação seja possível, ou aos instrumentos rituais e magia do curandeiro ou do feiticeiro.

Poucos na sociedade têm a habilidade de comunicar com os espíritos, já que a educação e formação profissional do curandeiro ou do feiticeiro é demasiado exigente e rigorosa. Assim os membros da comunidade que guardam o universo religioso e o culto dos espíritos organizam-se muitas vezes na forma de sociedades sagradas, algumas vezes secretas.

10. Religião e poder Político

As seitas religiosas e sociedades sagradas que controlam o acesso aos espíritos e a Deus, controlam também as instituições políticas. Assim o Rei ou o Soba mantêm a autoridade política, ao passo que as sociedades sagradas mantêm a ordem moral e lembram a sociedade que a autoridade do Rei depende do domínio espiritual, que é a fonte do ordem social - o Rei pode ter poder político, mas este é um poder vazio a não ser que seja reafirmado e reforçado pela autoridade das sociedades sagradas.

A capacidade de comunicar com os espíritos dos mortos serve também como instrumento de administração de justiça, pois com frequência o adivinho é chamado a resolver disputas entre membros da comunidade.

O Advinho interpreta factos em função de forças positivas; O curandeiro é um homem prático que tem grande conhecimento do poder curativo de plantas; O feiticeiro lida com forças negativas que ele manipula contra as suas vítimas.

11. * Ritos de Puberdade - A Circuncisão entre os Maiaca de Angola

Pelo seu interesse e oportunidade, transcrevo no final deste capítulo um trecho das "Notas de Etnografia Angolana", do etnólogo Mário Milheiros, do antigo Instituto de Investigação Científica de Angola (IICA), Segunda edição corrigida e anotada, publicado em Luanda em 1967, que passo a seguir a transcrever:

"A circuncisão entre os Maiaca é uma tradição transmitida de geração em geração. Antes da entrada dos operados na circuncisão não fazem qualquer cerimónia, mas os rapazes dançam em grandes batucadas que duram até cinco dias, comendo bastante criação (galinhas) morta para essa festa e bebendo muito malavo, depois do que entram para o recinto, para a operação. A festa referida consta de batucadas, grandes banquetes em que a bebida corre a jorros, acorrendo gente de todas as redondezas, com cabaças de malavo, dinheiro, cobertores, etc., para adquirirem carne que é distribuída em abundância. A circuncisão é feita num recinto especial, junto às sanzalas, vedado em altura suficiente para que não se veja o que se passa lá dentro. Á volta, o cercado consta de um paliçado vulgar, mas a porta principal que dá entrada ao recinto, é antecedida por um pequeno corredor em forma de S. A este cercado, suficientemente espaçoso para que dentro dele sejam construídas três palhotas (duas para os circuncisos e uma para os muquixes) dão os Maiacas o nome de icalacala-iá-lôngua. Neste recinto praticam o corte e ali permanecem os operados cerca de oito meses. A seguir ao corredor em S já referido, está a porta, e ante a presença do muquixe é feita a operação, após cada circunciso entra no recinto. Mais ou menos a meio e diametralmente opostas estão duas casas, nas quais se alojam os circuncisos. Ao fundo, uma terceira palhota serve para guardar todos os muquixes e objectos que entram nas várias cerimónias que acompanham a festa. Atrás dessa ultima palhota, é o lugar onde se deitam os panos que os circuncisos vestiam na sanzala e que são trocados por mabelas e onde se enterram os prepúncios cortados e plantam as bananeiras que assinalarão a forma como decorreu a cerimónia. Os principais interventores são os seguintes: Bicumbe - os rapazes que vão seer sujeitos à circuncisão; Mucua-mucanda - os já circuncisos; Txiabula e ajudante Quitapa - que é o operador que se apresenta com umas penas brancas (tsala) na cabeça, um risco de tacula ao longo do nariz, um pano à cintura com uma pele de gato bravo; Quixirica - tem uma vestimenta vulgar e usa uma pena na cabeça - toma conta dos circuncisos; e, Luvumbo - o artista que arranja as máscaras para as festas. Os circuncisos tomam um nome especial, segundo a ordem em que são operados e assim se denominam Cambungo, Cacunda ou Quiala, Mulopo, Maquengo, Caxala, Muana-Uta e Majita. A palavra muquixe tem dois significados: a máscara usada em certas cerimónias; e a cabaça, boneco, embrulho, ou qualquer objecto que os Maiacas atribuem um poder sobrenatural e a que vulgarmente damos o nome de feitiço. Os Muquixes-máscaras (designação que também abrange os homens mascarados com atavios de muquixes) que tomam parte nas cerimónias de circuncisão, dividem-se em dois grupos: Cosso - muquixe vulgar; e, Bau - muquixe com chifres. De todos os muquixes da circuncisão, os mais importantes são os Maiamba - mãe dos circuncisos, e o Matsala - que é o pai. São estes os mais importantes e dos quais fogem de medo, sob pena de caírem nas mãos deles e serem fortemente espancados. Especialmente o Matsala, é terrível, segundo dizem, corre muito, arranca o cabelo às pessoas e puxa-lhes as orelhas quase as arrancando. Entre os muquixes Bau (portanto, com chifres), temos: Bau propriamente dito - com cara masculina, enfeitada com mabelas, uma cabeça enorme mais ou menos esférica e três grandes chifres; Quissocolo - máscara semelhante ao Bau, mas com chifres para a frente; e, Maienda - semelhante ao Bau, mas om nariz enorme e revirado para cima. Entre os muquixes Cosso, temos: O Matsala - pai dos circuncisos, semelhante ao Maiamba, mas com uma mascarilha de cordas, com cabaças pequenas, furadas nos sítios dos olhos e um pau grande e adunco a servir de nariz; o Maiamba - mãe dos circuncisos, em regra com os traços caricaturais de algum branco, enfeitada com uma corda à volta da cabeça à qual estão presas diversas penas de pássaros; o Macala - máscara pequena enfeitada de cores berrantes, usada só dentro do recinto da circuncisão e que serve de feitiço para defender os circuncisos; O Cocolo - espécie de mascarilha, feita de junco, com um penacho, para enfiar na cabeça; e, o Cacungo - mascarilha simples feita de mabela e junco."

12. Explicação de Termos Usados

Funerais e o Culto dos Mortos - ritos e cerimónias cuja finalidade é obter a ajuda dos mortos, ou de os ajudar na vida após a morte.

Animismo - crença que atribui às coisas uma alma humana. 2. crença em espíritos e num estado futuro ou paralelo à vida real.

Religião - conjunto de crenças num poder superior e sobrenatural do qual o homem depende

Sobrenatural - acima da natureza humana e superior às forças da natureza

Espírito - alma de defunto; principio incorpóreo que anima um ser vivo

Além - o que está para além (depois) da vida

Orar Antepassados - culto de antepassados

Mana - termo genérico para designar poder sobrenatural. 2. força espiritual colectiva independente de pessoas sobrenaturais.

Oferta para Sacrifício -

Ordálio - uma situação de prova preparada pelos homens, mas cujo resultado é teóricamente determinado por um poder sobrenatural que é sempre correcto, cuidadoso, omnisciente e neutral. O ordálio pressupõe que as consequências funestas apenas atingem os culpados.

Oração - reza ou meditação que inclui prece e contemplação.

Culto - conjunto de práticas religiosas para prestar homenagem ao divino. 2. um grupo social com ideologia, práticas rituais, e símbolos sagrados próprios.

Rito - conjunto de cerimónias ou actos formais prescritos para a celebração de um culto.

Rito de Passagem - conjunto de cerimónias ou rituais pelos quais um indivíduo se torna apto a desempenhar um certo papel na sociedade, a passar de uma fase do círculo da vida para outra.

Sociedades secretas - associações de pessoas que mantém pelo menos alguns dos seus ritos ou actividades secretas em relação aos que delas não são membros.

Shaman - curandeiro numa sociedade primitiva. O curandeiro tem acesso a poderes sobrenaturais que emanam de uma fonte a que ele tem acesso, para curar doenças ou para causar doença ou outro mal.

Pedra Filosofal - substância que segundo a crença teria o condão de transformar qualquer metal em ouro

Alquimia - espécie de quimica não científica a qual procurava obter a transformaçao de metais em ouro

Zombie - morto-vivo. 2. uma pessoa humana a quem a alma lhe foi roubada por meios de magia negra. O feiticeiro pode fazer o que quizer com o corpo, pois este está sob seu control completo.

Voodoo (vudu) - prática de feitiçaria originária da África Ocidental que se pratica nas Antilhas.

Magia - arte que pretende agir sobre a natureza e obter resultados contrários às suas leis, quer por meio de fórmulas ou ritos mais ou menos secretos, ou quer utilizando propriedades da matéria que se afirma serem desconhecidas (magia branca), quer fazendo intervir poderes demoníacos.

Bruxaria - capacidade sobrenatural atribuida às bruxas.

Talisman - objecto que, em certas circunstâncias, mediante certos procedimentos de magia, se supõe adquirir propriedades virtuais e espirituais, bem como de curar doenças ou de livrar de perigos. 2 - figura de pedra ou de metal, com caracteres gravados, que se supõe ter poderes sobrenaturais que protegem a pessoa que a usa contra o azar ou certos males.

Charm - expressão oral usada para produzir efeitos mágicos ou predizer o futuro. 2. pequeno objecto de adorno com poderes mágicos de protecção.

Maldição ou presságio - Palavras usadas para invocar forças sobrenaturais com a finalidade de causar mal ou azar a outra pessoa ou grupo. Devido à natureza sobrenatural dos malefícios invocados, a pessoa atingida tem pouca defesa em se proteger do mal, e só através da ajuda de outro feiticeiro é que uma maldição pode ser removida.

Amuleto - objecto de adorno ou que se traz a que se atribui supersticiosamente certa virtude de protecção contra perigos e males.

Ídolo - figuara esculpida, geralmente tridimensional e lembrando a figura humana, à qual se atribuem poderes sobrenaturais e em relação à qual se supõe que retrata o poder natural que representa.

Feitiço - objecto a que se atribuem poderes mágicos, normalmente associado a um ou mais espíritos . 2. - coisa feita por arte mágica ou feitiçaria;

Feitiçaria - crença pela qual um objecto ou pessoa está possuída por espíritos que não o seu; bruxedo, sortilégio;

Fábula - narrativa curta e imaginária, com objectivo pedagógico ou moral, geralmente protagonizada por animais ou seres inanimados

Lenda - narrativa escrita ou tradição de sucessos duvidosos, fantáticos ou inverosímeis

Mito - relato das proezas de deuses ou heróis ou de acontecimentos históricos, suceptível de fornecer uma explicação do real no que diz respeito a certos fenómenos naturais ou a algumas facetas do comportamento humano, e que deu origem a tradições, religiões ou doutrinas. Os mitos reflectem tentativas de explicação de fenómenos naturais em sociedades primitivas.

Mitologia - grupo organizado de conhecimento e história dos deuses e heróis fabulosos da antiguidade. 2. conjunto de crenças e interpretações irracionais que se misturam com as concepções positivas dos contemporâneos.

Folclore - histórias populares e anónimas que se contam com frequência entre pessoas não letradas.

Totem - animal, vegetal ou objecto, considerado como protector de um clã, que simboliza a unidade do grupo e actualiza algumas das características com que os membros senrem afinidade, e ao qual se vinculam ainda por deveres e tabus sociais e religiosos.

1 Comments:

Blogger layse said...

Essa pagina esta otima, mais me fala um pouco sobre as relações extrínsecas e intrínsecas do homem na sociedade!
Vou ficar muito grata!
Beijos

4:50 AM  

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