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Location: Cranbrook, Colômbia Britânica, Canada

Helder Fernando de Pinto Correia Ponte, também conhecido por Xinguila nos seus anos de juventude em Luanda, Angola, nasceu em Maquela do Zombo, Uíge, Angola, em 1950. Viveu a sua meninice na Roça Novo Fratel (Serra da Canda) e na Vila da Damba (Uíge), e a sua juventude em Luanda e Cabinda. Frequentou os liceus Paulo Dias de Novais e Salvador Correia, e o Curso Superior de Economia da Universidade de Luanda. Cumpriu serviço militar como oficial miliciano do Serviço de Intendência (logística) do Exército Português em Luanda e Cabinda. Deixou Angola em Novembro de 1975 e emigrou para o Canadá em 1977, onde vive com a sua esposa Estela (Princesa do Huambo) e filho Marco Alexandre. É gestor de um grupo de empresas de propriedade dos Índios Kootenay, na Colômbia Britânica, no sopé oeste das Montanhas Rochosas Canadianas. Gosta da leitura e do estudo, e adora escrever sobre a História de Angola, de África e do Atlântico Sul, com ênfase na Escravatura, sobre os quais tem uma biblioteca pessoal extensa.

Tuesday, May 30, 2006

4.13 Filosofia e Teorias da História

Amigo Leitor:

Este capítulo ainda está em desenvolvimento. Espero tê-lo pronto para publicação dentro de algumas semanas.

Até lá, aprecio a tua paciência e apelo à tua compreensão.

Helder



Como actividade de conhecimento humano, a história existe desde o tempo em que os primeiros homens se organizaram em grupos sociais estruturados (sociedades). Como disciplina e processo de conhecimento do passado, a história tem uma tradição rica que desde cedo estabeleceu raízes profundas em várias civilizações.

Contudo, foi durante os últimos seis séculos que a história se emancipou como disciplina, mais propriamente desde o Renascimento Europeu, pois até aí, a história era tida como uma parte da literatura ou da mitologia. Como ciência, a história é uma disciplina ainda mais jovem, pois só nos finais do Séc. XIX, é que a história se organizou como campo independente de pesquisa e conhecimento. Foi nas universidades europeias que a história se desenvolveu mais e se identificou como ramo de conhecimento próprio, e se formaram as primeiras correntes gerais de pensamento histórico. Desde então muitos pensadores e historiadores ampliaram e aprofundaram o campo de conhecimento da história.

Filosofia da História

Alguns pensadores na Antiguidade Clássica (Grécia e Roma antigas) observaram que existia uma certa repetitição cíclica na sequênca da história da humanidade através de guerras, desastres, destruição de cidades, ascensão e quedas de impérios e civilizações, que desde tempo imemorial flagelavam a humanidade. Ao estudar e escrever história, os mesmos pensadores indagaram também a razão de ser (a finalidade, o fim) da história como área do conhecimento humano, e os métodos diferentes de se conhecer a história e transmiti-la a gerações vindouras.

Contudo, só em 411 em Cartago, é que o filósofo Santo Agostinho, na sua obra "Cidade de Deus" perguntou se havia algum sentido na evolução histórica da humanidade, se havia um sentido na história, ou se a história tinha um fim. Santo Agostinho concluiu que sim e encontrou a resposta a esta importante pergunta na vontade de Deus. Esta reflexão de Santo Agostinho sobre a natureza da história foi o primeiro passo no longo debate da Filosofia da História.

A solução teológica (divina) de Santo Agostinho da filosofia da história perdurou até aos finais do Séc. XVIII, quando o filósofo alemão Immanuel Kant abriu de novo o debate e avançou a ideia em 1784 de que havia uma lógica na história, e que para encontrar essa lógica teríamos de abarcar toda a humanidade (passada e presente) através da história universal.

A questão levantada por Immanuel Kant foi retomada em 1830 pelo filósofo alemão G.F. Hegel, publicada na sua obra póstuma História Filosófica da Humanidade publicada em 1837, que concluiu que a razão (ideia, pensamento) era o motor da história. Hegel acreditava que havia um progresso geral da humanidade desde os tempos da barbárie, passando pela Idade Média, Renascimento e Iluminismo, e que a razão (ideia, pensamento) era o agente motor dessa evolução secular da humanidade.

Para Hegel apenas podemos conhecer a actividade humana somente através da sua história; assim a filosofia não é senão a história da filosofia. Hegel adiantou ainda que para um indivíduo ser o que é e podermos conhecê-lo propriamente, temos de integrar esse indivíduo numa sociedade, e para compreendermos essa sociedade, temos que estudar a sua história e as forças que a moldaram; e concluiu ainda que o "Espírito da Idade (Época)" (Zeitgeist) é a incorporação concreta dos factores mais importantes que actuam na história humana a qualquer ponto do seu continuum histórico. De acordo com a interpretação historicista da história, cada época tem o seu sistema de conhecimento específico. A este enfoque histórico da actividade humana dá-se o nome de historicismo.

A concepção idealista da história de Hegel foi rebatida por Karl Marx e Frederic Engels, que embora baseados na dialética idealista de Hegel, a inverteram e adaptaram ao conceito materialista da história, em que a luta de classes era o motor da história, pois defenderam que as ideias eram o resultado das relações de produção, e não estas o resultado das ideias.

Teorias da História

Quando pensamos em história, como experiência humana do passado, é natural indagar se com o que aprendemos sobre o passado nos permite encontrar e reconhecer certos padrões na estrutura do desenvolvimento das sociedades do passado, e se munidos desse conhecimento do processo histórico das sociedades passadas, podemos enunciar certas leis mais gerais que não se aplicam somente à história de outras sociedades mas também à evolução geral da espécie humana; e para além disso, como nos podem ajudar também a discernir se o futuro da humanidade é fruto do acaso ou se é predeterminado.

A estas perguntas os estudiosos de história avançaram um número de explicações que refinaram em "teorias da história" em que procuraram explicar o desenvolvimento histórico da espécie humana. Essas teorias procuram não só explicar o que aconteceu, mas também porque é que aconteceu, e, mais ainda, dizer o que vai acontecer no fim da história.

Com base nas suas teorias da história certos pensadores preconizam que existe um determinismo no percurso da história da humanidade, independente da vontade dos homens, e que com base daquilo que conhecemos do passado nos permite compreender o futuro. Contudo, outros pensadores concluíram que tal determinismo é impossível de realizar, pois a liberdade do homem nega qualquer possibilidade de certeza para além do momento presente.

As teorias da história são achegas para explicar a história, isto é, a evolução da espécie humana. Elas estabelecem relações entre certos factos de acordo com certas leis (princípios de cada teoria da história), de modo a resultar numa explicação racional e coerente do passado e da previsão do futuro. Neste processo o historiador escolhe os factos históricos relevantes e omite aqueles que não contribuem para a explicação de acordo com a teoria da história que professa. De um modo geral, as teorias da história podem resumir-se nas seguintes correntes de pensamento histórico:

1 - A Teoria dos Ciclos Históricos - De acordo com as teorias cíclicas da história o progresso das sociedades humanas desenvolve-se de acordo com grandes ciclos que se repetem ao longo dos tempos, independentemente da vontade dos homens. A explicação cíclica da história teve origem nos pensadores da Grécia Antiga, dos quais Heródoto (o Pai da História, 484-424 AC) e Tucídedes (460-404 AC) são os expoentes mais conhecidos.

Mais tarde, já na Idade Média, Petrarca (1304-1374), retomou a teoria dos ciclos e acrescentou que a história não era o resultado da vontade de Deus, mas sim o resultado da acção humana. Pouco mais tarde, Maquiavel (1469-1527) confirmou que a história evoluía de acordo com ciclos, mas acrescentou que esses ciclos eram o resultado da estrategia política dos governantes.

Giambattista Vico (1668-1744) na sua obra "Ciência Nova", publicada em 1725, foi o primeiro pensador da história a propôr uma teoria cíclica da história em que as cidades humanas passavam invetavelmente por certas fases distintas de desenvolvimento ao longo dos tempos. Já mais recentemente, Oswald Spengler (1880-1936) e Arnold Toynbee (1884-1975) também sugeriram que a história humana se desenrola em ciclos, pois encontramos sempre a evidência deste princípio nas inúmeras civilizações cuja ascenção e queda, evoluindo sempre mais altos que os anteriores, são a confirmação da evolução cíclica da espécie humana.

2 - As Teorias Lineares de História - A concepção linear da história baseia-se no princípio de que a espécie humana se desenvolve ao longo de uma linha secular de evolução até atingir um certo estágio ou ponto final. Santo Agostinho (350-430) foi quem primeiro avançou esta interpretação, quando afirmou que a evolução das sociedades humanas é a manifestção do plano de Deus, e que com o processo de evolução, a história culminaria no Juízo Final. Voltaire (1694-1778) retomou a tese augustina mas despiu-a de influências divinas, afirmando que a evolução humana se desenrolava em vários estágios de conhecimento, culminando o último com o conhecimento científico característico do Iluminismo de Isaac Newton (1642-1727).

A explicação linear da história foi retomada por Karl Marx (1818-1883) que propôs que a evolução geral da humanidade se desenrolou ao longo de uma linha geral de luta de classes que havia de culminar inevitavelmente na ditadura da classe trabalhadora, num estágio histórico de comunismo puro, concluindo também que a história não é senão a história dessas lutas de classes, dentro dos paramatros do determinismo histórico.

Já no limiar do Séc. XX, H.G. Wells (1866-1946) notou também que a progressão geral da humanidade se realizava ao longo de uma linha geral, afirmando que a história não era senão que uma corrida entre educação (como processo crescente de aperfeiçoamento de ideias) e desastre (entre o saber e a ignorância, entre o conhecimento e o caos), resultando num cataclismo geral ou num estado mundial.

3 - A Teoria dos Feitos das Grandes Personalidades Históricas - Esta teoria sugere que o curso geral da humanidade é o resultado da acção de grandes figuras históricas (chefes militares, grandes estadistas, líderes de grandes religiões mundiais, ou mesmo grandes pensadores) que moldaram a história dos povos ao longo dos tempos, e que a história não é senao o registo dos feitos desses grandes homens. Thomas Carlyle (1795-1881) foi quem primeiro avançou esta explicação da evolução humana.

4 - As Teorias da Vida Quotidiana - A visão quotidiana ou a visão da vida material baseia-se na permissa de que a história é o registo colectivo da experiência do homem no seu viver quotidiano. Sir Walter Scott (1771-1832) foi quem primeiro avançou esta explicação, que haveria de ser mais tarde refinada por William E. B. Dubois (1868-1963), quando este pensador rejeitou a noção de que a história se limitava aos registos dos acontecimentos históricos da civilização ocidental, e expandiu o mesmo conceito à vida quotidiana de todos os outros povos e civilizações.

Fernand Braudel e os "Annales Economiques et Sociales"

5 - A Teoria das Ideias - De acordo com a teoria das ideias da história, as ideias são a fonte principal da evolução dos povos. As condições que criam ahistória são sempre criadas ou modificadas pelas ideias. G.W. Hegel (1770-1831) foi quem primeiro desenvolveu esta explicação da história, quando afirmou que a história não é senão que o refinar contínuo da compreensão intelectual humana. A teoria das ideias de Hegel pode também ser considerada como um teoria linear da história, já que Hegel descreveu a história como o desenrolar da vontade divina ao longo dos tempos.

6 - A Teoria do Materialismo Histórico - A Economia Política como explicação da história - As teorias económicas da história vêm a economia política como o factor mais importante na determinação histórica. De acordo com esta visão, a produção, distribuição e troca de bens e serviços são abase das estruturas sociais de todas as sociedades. Karl Marx foi quem primeiro formulou a escola de pensamento do materialismo histórico, tomando o conceito de dialéctica hegeliana e, "virando-o ao contrário", o aplicou à situação concreta da história dos povos, afirmando que não eram as ideias que criavam as condições materiais, mas que de facto, eram as condições materiais que geravam as ideias. De acordo com o materialismo histórico, a história não é mais que o estudo das relações entre as forças produtivas (o homem, a natureza e as técnicas) e as formas de propriedade das diversas sociedades humanas ao longo dos tempos.

7 - Outras Teorias da História - Além das teorias da história enunciadas acima, outras teorias procuram explicar a história com base noutras razões. Alguns pensadores avançaram a explicação de que a história das sociedades humanas é condicionada por factores geográficos, ao passo que outros vêm as guerras como os grandes determinantes da história; Outros ainda sugerem que a religião, raça ou ainda o clima determinam o curso da história; Outros ainda explicam a história como o resultado simples do caos e do acaso, como Friedrich Nietzche (1844-1900), que sugeriu que a história não tem princípio nem fim, e que pode apenas ser compreendida atraves do poder da razão.

De particular importância para a história de África é o historicismo antropológico desenvolvido por Franz Boas, pelo qual houve vários "berços de civilização" que se expandiram em forma de círculos e se adaptaram ao conjunto de circunstâncias em que viveram.

6 Comments:

Blogger J. Barros said...

Caro amigo,
Através da Sanzalangola, tenho acompanhado os seus escritos, pelos quais lhe dou desde já os meus parabéns. Como está ainda nas Teorias da História, permito-me sugerir-lhe que explore um pouco mais os "novos historiadores" e particularmente Fernand Braudel que você, aliás, já citou. Ao contrário de muitos, julgo que Braudel não é um Marxista. O desenvolvimento que faz da idéia das "economias mundo" é particularmente importante. Entendo também que a Civilization Materielle, Economie e Capitalisme é uma obra de referência. Há um pequeno resumo das suas idéias, publicado - não me ocorre agora o título - com base numa conferência que deu na Universidade Johns Hopkins. Braudel tem para nós a vantagem de conhecer bem a história de Portugal e até a da expansão ultramarina, visto que leccionou no Brasil, como saberá.É apenas uma sugestão, como lhe disse. Porque, na verdade, o que aguardo com ansiedade, é que comece a escrever sobre Angola, em concreto, apesar de entender que é muito útil o que escreveu até agora.
Um abraço
José Barros

3:26 AM  
Blogger rafalel28 said...

sensasional seu artigo, muito didático, me ajudou no trabalho sobre filosofia da história

7:05 AM  
Blogger josé de souza moreira said...

Estou estudando filosofia da história e achei o artigo esclarecedor tirando alguns dúvidas e fortalecendo convicções. Grato.
JS>Moreira

12:18 PM  
Blogger josé de souza moreira said...

Penso que se havia alguma dúvida quanto á minha posição aqui ela foi tirada.
Obrigado

12:20 PM  
Blogger josé de souza moreira said...

Estou estudando filosofia da história e achei o artigo esclarecedor tirando alguns dúvidas e fortalecendo convicções. Grato.
JS>Moreira

12:20 PM  
Blogger Milton Pires said...

Parabéns pelo artigo. Para mais, depende de cada um.

Forte abraço.

8:33 AM  

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